Prosa - A Música, o Tempo e o Vento.

 

A MÚSICA, O TEMPO E O VENTO.

 

No quarto dos fundos atrás da casa da minha tia eu dormia. Não havia janelas; uma basculante fazia o trabalho de arejar o quarto. De teto baixo, em certas noites de chuvas dava para ouvir o barulho das gotas nas telhas eternit, nitidamente! Eu deitava na cama e pensava. Estava tão longe de casa, de meus amigos, de meu bairro, de meus amores. Longe das voltas que o 383 Tiradentes dava até o centro do Rio. O ventilador rufava para compensar a falta de janelas no quarto e em meu rádio, sintonizado todas as noites na Antena 1 FM, tocava "wind of change". Uma exigência frequente dos telefonemas dos ouvintes. A música era do Scorpions, e o ano era 1993, em Vitória.

 

Ali, deitado na cama, ouvindo wind of change, eu pensava em Realengo e em tudo o que amava e que estava agora distante. A bem da verdade, quando se tem dezoito anos, você não tem tantos amores assim. Tudo é só uma questão de intensidade.

 

Esses dias, depois de anos eu ouvi essa música novamente. Salvei no mp3 de meu celular, de uma coletânea romântica que ganhei. Ontem, sentei no ônibus de volta para casa e resolvi ouvir a música mais uma vez. Cansado, encostei a cabeça no vidro e quase adormeci. Então, por um instante eu retornei aquele quarto e suas lembranças.

 

            A música me levou diretamente as lembranças daquele ano. Eu vi as paredes, a basculante, lembrei-me do baralho do pé de manga atrás do quarto, no fundo do quintal. O quarto estava vazio. Sem amores, lembranças, sorrisos, tristezas e esperanças. Foi aí que lembrei que se você não disser exatamente onde quer estar, a música vai te levar a qualquer lugar. Pois só o coração sabe onde guarda as coisas que ama! Não é de se admirar que Cazuza tenha estranhado e cantado a coincidência daquela música que nunca mais tocou, quando o amor acabou.

 

Ney Gomes.
"Se trabalhamos e lutamos é porque temos colocado a nossa esperança no Deus vivo." 1 Timóteo 4.10




 

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