Ensinamentos de Sangue (Memórias Familiares).


ENSINAMENTOS DE SANGUE (Memórias Familiares).

Meu tio comprou a paciência do coveiro, que aguardava o enterro do último corpo, depois da última hora, da quase véspera do feriado (14/11). Já passava da hora habitual de se enterrar os mortos, e nós ainda estávamos ali, chorando. Minha avó era o tipo de pessoa que transformava “sangue em família”. Cresci vendo com freqüência muitos familiares ao redor de sua casa. Totalmente analfabeta, mas cheia de coragem, saiu uma vez do Espírito Santo, para buscar no Paraná, um dos irmãos com sua família. Lembro-me sempre de uma certa careta que ela fazia quando não queria falar sobre algo desagradável.
Minha mãe me perguntou esses dias, se eu achava que minha avó tinha sido feliz, apesar de ter casado com 13 anos, apanhado com freqüência do marido, ter ficado viúva cedo e com três filhos para criar sozinha. Falei que acreditava que minha avó tinha sido feliz sim. Tem pessoas que possuem o dom de extrair o que se precisa da escassez. Ela não teve uma vida feliz, mas, soube aproveitar os momentos de felicidade. Morreu enquanto dormia, a morte que eu disse para minha mãe que desejava ter, numa conversa no início desse ano. Minha avó tinha somente um medo: Medo de morrer! Morreu sem perceber, sem sentir, sem dor.
O coveiro, um senhor de idade, já havia me dito mais cedo, que enterrara dez pessoas naquele dia. Seu amigo, tinha ido embora, lhe deixando a tarefa penosa de fazer tudo o que faltava e fechar o cemitério. Nós descemos o corpo [pois o cemitério era num morro] e ele, visivelmente cansado, começou a jogar a terra. As pazadas tinham o ritmo de uma eternidade, então, eu, que só fui ao enterro por trazer o título de neto mais velho, peguei uma outra pá e comecei a lhe ajudar. Meu primo pegou a enxada e fez o mesmo. E em menos de cinco minutos eu tomei consciência que deveria enterrar os “meus mortos”. Ajudei o coveiro a guardar as ferramentas e arrumei carona para ele voltar pra casa, já que o cemitério era no meio do nada. Alias, ele deixou o cemitério aberto por causa da carona. Mal enterrei a minha avó e já estava preocupado com o senhor na minha frente, cansado de fazer buracos debaixo de um sol causticante. Talvez eu tenha herdado de minha avó [e de minha mãe] o dom de fazer “sangue virar família”, de fazer isso por qualquer sangue. Ou talvez, minha avó soubesse mais de igreja em seu analfabetismo, do que eu, em toda a minha leitura.

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