Salmo 139 - Bastidores

 

Salmo 139 - Bastidores.

SOB A EXAUSTÃO DA CONFISSÃO.

Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração; prova-me, e conhece os meus pensamentos. E vê se há em mim algum caminho mau, e guia-me pelo caminho eterno. (Salmos 139:23,24 | ACF)

O livro de Neemias nos ensina que o nosso maior inimigo não está para além dos muros da igreja (Lc 9. 23). O verdadeiro inimigo habita dentro de nós, no âmago da nossa natureza humana. Uma das maiores lições desse livro é que devemos evitar, a todo custo, o vitimismo e a busca desenfreada por culpados. Antes de apontarmos para os erros dos outros, precisamos reconhecer a corrupção que ainda reside em nosso próprio coração.

Quando contemplamos a oração de Davi no Salmo 139, somos, num primeiro momento, tomados por um profundo espanto. O convite que ele faz a Deus parece, à primeira vista, algo próprio de alguém que perdeu completamente o juízo. Afinal, quem teria coragem de dizer:

"Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração; prova-me e conhece os meus pensamentos."

A primeira parte dessa oração já é suficientemente desconcertante. Mas a segunda parece ainda mais ousada, resultado de alguém que foi criado com mamadeira de gardenal:

"Vê se há em mim algum caminho mau."

Como alguém pode pedir ao Deus que tudo sabe, que tudo vê e de quem nada pode ser escondido, que examine seu coração, como se houvesse a possibilidade de Ele não encontrar nenhuma maldade? Uma auditoria divina infrutífera.

À primeira vista, essa oração parece beirar a insanidade. Contudo, ela não nasce da loucura, nem de uma coragem inconsequente. Ela nasce da exaustão da confissão.

Davi não faz esse convite porque acredita ser perfeito. Pelo contrário. Ele o faz porque vive uma vida inteira de arrependimento. Diariamente, continuamente, ele reconhece sua natureza caída. Ele conhece as concupiscências dos olhos, da carne e do coração. Por isso, confessa seus pecados sem cessar diante do Senhor (Dn 9. 20).

Em 2003 conheci um Querubim terrestre.

SEU CORAÇÃO É TRATADO CONSTANTEMENTE.

Assim como uma mulher diligente varre diariamente a sua casa, impedindo que a sujeira se acumule, ou como um cozinheiro cuidadoso mantém suas panelas sempre limpas para que nada se estrague, Davi mantém sua alma sob permanente limpeza pela confissão (Salmo 32).

É justamente por viver nessa disciplina que ele pode pedir a Deus que o sonde. Não porque nunca tenha pecado, mas porque nada permanece escondido. Sua consciência é constantemente exposta diante do Senhor (I Jo 1. 8, 9).

Essa prática também produz outro efeito extraordinário: ela neutraliza o veneno da ofensa.

Somente se ofende facilmente quem ainda não conhece a profundidade da própria miséria. Quem enxerga claramente a perversidade da sua própria natureza dificilmente se escandaliza com a maldade alheia. Afinal, ninguém consegue surpreender alguém que já conhece, antes de tudo, o próprio coração.

Davi dominava esse conhecimento como poucos homens na história. Talvez seja exatamente por isso que prosperou em todos os seus caminhos. A ofensa paralisa; a humildade impulsiona. Pessoas facilmente ofendidas dificilmente avançam, pois gastam suas forças defendendo o próprio ego em vez de fortalecerem o próprio espírito.

Paulo compartilhava dessa mesmíssima compreensão. Escrevendo aos Romanos (7. 24), ele declara:

"Miserável homem que eu sou! Quem me livrará do corpo desta morte?"

Essa não era uma declaração derrotista, mas de lucidez espiritual. O homem que conhece sua verdadeira condição torna-se completamente dependente da Graça de Deus. E justamente essa dependência o torna imparável. Todo desígnio espiritual confiado a pessoas assim carrega consigo o selo da humildade, da maturidade e, consequentemente, da frutificação (II Co 1. 8- 10).

Talvez seja exatamente por isso que Paulo também afirma:

"Por causa disto há entre vós muitos fracos e doentes, e não poucos que dormem."

O problema não começa quando nos esquecemos de que Deus é bom. Essa verdade continua sendo proclamada incansavelmente todos os dias. O verdadeiro problema começa quando nos esquecemos de que nós somos maus. Quando perdemos a consciência da nossa natureza pecaminosa, deixamos de sentir necessidade de um Salvador. E, quando deixamos de precisar de um Salvador, inevitavelmente passamos a confiar em nós mesmos. Não precisamos apenas que Jesus nos salve do inferno, precisamos que Ele nos salve de nós mesmos. Das nossas maquinações. Das nossas concupiscências. Do nosso orgulho. Da nossa tendência de justificar os próprios erros enquanto condenamos os dos outros.

Tudo começa a dar errado quando esquecemos que somos completamente dependentes da graça. É essa consciência que nos mantém ajoelhados. É essa confissão contínua que preserva nosso coração limpo. E é dessa exaustão da confissão que nasce a ousadia de orar como Davi:

"Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração... "

 

Ney Gomes – 19 de julho de 2026. #bloggrãos
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