Socialismo Verdadeiro, por Paulo [1/3]
O SOCIALISMO VERDADEIRO:
UMA LEITURA
TEOLÓGICA DE FILIPENSES 2
À LUZ DA TRADIÇÃO
APOSTÓLICA
Policarpo de Esmirna, discípulo de João e uma das figuras mais relevantes da geração dos chamados Pais Apostólicos, ocupa lugar singular na história da Igreja primitiva. Em sua Epístola aos Filipenses, escrita à comunidade à qual também se dirige o apóstolo Paulo, Policarpo retoma e desenvolve uma concepção de vida cristã profundamente marcada pela relação entre amor, justiça, comunhão e santidade. Elementos esse que formam a substância de qualquer socialismo verdadeiro.
Logo no início de sua epístola, encontramos uma afirmação que merece especial atenção:
“Pois todo aquele que permanecer nessas virtudes este cumpriu os mandamentos da justiça. Pois quem permanece na caridade está longe de todo pecado.”
A afirmação de Policarpo estabelece uma relação essencial entre a permanência no amor e o afastamento do pecado. Em termos antropológicos, poderíamos dizer que o pecado possui uma estrutura profundamente egocêntrica: ele desloca o homem para o centro de sua própria existência, fazendo do próprio interesse o princípio regulador de suas decisões.
O amor, entretanto, realiza o movimento contrário. Ele descentraliza o indivíduo.
Se o pecado constitui uma espécie de “encarnação do ego”, o amor constitui a abertura do sujeito ao outro. Por isso, a ética cristã não pode ser compreendida apenas como um conjunto de normas comportamentais. Ela é, antes de tudo, uma transformação da própria disposição interior do homem.
É precisamente nesse horizonte que Filipenses 2 adquire extraordinária relevância.
1 - Filipenses 2 e a dimensão
comunitária da fé cristã
A epístola aos Filipenses apresenta, no segundo capítulo,
uma das formulações mais densas do Novo Testamento acerca da vida comunitária.
Paulo escreve:
“Completai o meu gozo, para que sintais o mesmo, tendo o mesmo amor, o mesmo ânimo, sentindo uma mesma coisa.” (Filipenses 2:2)
Paulo escreve:
“Completai o meu gozo, para que sintais o mesmo, tendo o mesmo amor, o mesmo ânimo, sentindo uma mesma coisa.” (Filipenses 2:2)
O apóstolo não está simplesmente solicitando uniformidade comportamental. Sua preocupação é muito mais profunda: ele deseja que a comunidade seja constituída por uma disposição espiritual comum.
“Um mesmo amor”, “um mesmo ânimo” e “uma mesma coisa” apontam para uma unidade que não é produzida primariamente por mecanismos institucionais, coerção política, pólvora seca ou regulamentação externa.
Essa perspectiva permite compreender que a comunidade cristã primitiva possuía uma concepção de justiça social que não dependia, em primeiro lugar, da imposição de estruturas exteriores. A transformação social proposta pelo Evangelho começa na transformação do sujeito interior. Nunca por outro lugar!
A questão fundamental, portanto, não é apenas:
Como transformar a sociedade?
A pergunta cristã precisa ser anterior:
Que tipo de homem é capaz de construir uma sociedade verdadeiramente justa?
Para Paulo, a resposta está em Cristo.
Os apóstolos e pais da igreja entenderam que o verdadeiro socialismo é uma ideia que não pode ser regulada exteriormente. Pensamentos sentimentos disposições e concordância só podem ser criados pelo governo de Cristo Jesus mediante a ação direta do Espírito Santo no coração dos homens (Ef 4. 28). Se o socialismo exige uma força para dar certo, os apóstolos afirmam que essa força só pode existir de dentro para fora. E é por isso que todas as tentativas de se implementar o socialismo no último século deram errado (II Co 5. 17). Porque o socialismo de verdade não pode ser imposto pela força do braço e nem pelo poder das armas.
2. O pecado como estrutura
do ego e o amor como
princípio de comunhão
Paulo prossegue:
“Nada façais por contenda ou por vanglória, mas por humildade; cada um considere os outros superiores a si mesmo.” Filipenses 2:3
Aqui encontramos um dos elementos fundamentais da antropologia paulina: a superação do ego como centro absoluto da existência.
Quem tem olhos apenas para as suas empadinhas jamais vai estar apto para colocar azeitonas na empadinha de outros. O apóstolo Paulo vai nos afirmar que nós somos senhores absolutos daquilo que nos motiva e servos totais das nossas ações.
Paulo não afirma simplesmente que devemos ignorar nossos próprios interesses. Ele afirma que devemos também considerar os interesses dos outros.
Essa pequena palavra — também — possui extraordinária importância teológica.
“Não atente cada um para o que é propriamente seu, mas cada qual também para o que é dos outros.” Filipenses 2:4
O cristianismo não propõe a anulação da pessoa, mas a superação do individualismo. Para isso o verdadeiro amor tem um papel fundamental pois como afirma Policarpo em sua epístola: “o amor é a mãe de todos nós”.
Sem amor afirma ele, não pode haver uma verdadeira justiça. E sem justiça verdadeira afirmo eu, não pode haver socialismo verdadeiro (II Ts 3. 10- 13).
3. A justiça cristã não pode ser produzida exclusivamente por estruturas externas
A tradição apostólica parece
compreender que nenhuma transformação social duradoura pode ser produzida
exclusivamente pela alteração das estruturas externas. Instituições são
importantes. Leis são necessárias. Organizações sociais possuem sua função.
Entretanto, nenhuma estrutura consegue produzir aquilo que o Evangelho chama de transformação do coração. Pode-se obrigar alguém a dividir seus bens, mas não se pode obrigá-lo a amar esse outro (I Co 13. 3). Pode-se estabelecer mecanismos de redistribuição (bolsas, bolsas, bolsas), mas não se pode obrigar misericórdia. Pode-se criar igualdade jurídica, mas não se pode decretar humildade. É justamente por isso que a ética do Novo Testamento não começa com a estrutura social, mas com o coração humano. O problema não é apenas aquilo que o homem possui. É aquilo que possui o homem.
[CONTINUA...]
Ney Gomes – 26 de maio de 2021.
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