Especial - CRISTO NO MÁGICO DE OZ.

 


CRISTO NO MÁGICO DE OZ.

A virada do século XIX para o XX produziu abundante literatura de natureza cristã. Algumas obras possuem simbolismos facilmente identificáveis; outras exigem um olhar mais atento. Em The Lord of the Rings, o autor enfatiza a restauração da ordem divina, a redenção do mundo e o triunfo do bem sobre o mal. Já em The Chronicles of Narnia, o foco está no plano da redenção, centralizado na pessoa do Redentor: Cristo.

Mas o que existe em The Wonderful Wizard of Oz?

Sabemos que seu autor, L. Frank Baum, foi criado em um lar metodista. Qual mensagem escondida poderia existir em sua obra? Que aspecto da vida cristã ele revela? Baum transpira, em sua narrativa, muito da influência espiritual que recebeu do metodismo.

Logo no início, o autor apresenta um dos grandes dramas da alma humana: a ausência de contentamento, de paternidade e de discipulado. O furacão simboliza acontecimentos que fogem ao controle humano (Jó 38) e, de maneira subjetiva, aponta para a ação regeneradora do Espírito Santo (At 2. 1). Oz é apenas a embalagem; o verdadeiro conteúdo está naquilo que o autor deseja comunicar espiritualmente.

Dorothy

Ao chegar em Oz, Dorothy descobre que não parece pertencer a lugar algum. Essa sensação é retratada no contraste (ego enorme) entre ela e os Munchkins, todos pequenos diante dela (Jo 3. 30)

A bruxa que morre logo no início — cuja identidade sequer é revelada — simboliza a velha vida de Dorothy. Os sapatinhos de rubi representam aspectos da vida cristã que não são destruídos pela conversão, mas transformados pela caminhada em discipulado.

No filme de 1939, The Wizard of Oz, o uso das cores deixa isso ainda mais evidente. Os sapatos vermelhos, a estrada amarela e a Cidade Verde de Esmeraldas formam uma espécie de caminho visual do discipulado. Vermelho, amarelo e verde lembram um semáforo: parar, caminhar e prosseguir. Tudo aponta para uma jornada de transformação.

O Espantalho

A caminhada de Dorothy é, na verdade, um processo de restauração dos aspectos da humanidade destruídos pela queda no Éden. O primeiro deles é o aspecto psicológico e racional (I Pe 2. 2).

O Espantalho simboliza a fragilidade de quem não pensa. Afinal, somos chamados a oferecer a Deus um culto racional (Rm 12. 1- 3). Existe um detalhe interessante: quando o grupo vai enfrentar a Bruxa do Oeste, o Espantalho é o único personagem armado (revólver). Isso revela que pessoas incapazes de pensar profundamente tendem ao extremismo, sendo pouco dadas ao diálogo e ao entendimento.

A própria Bruxa demonstra uma implicância natural com ele, porque quando o entendimento é afetado, todo o restante da vida acaba comprometido. Sua fragilidade física simboliza justamente a falta de sustentação de quem não possui discernimento.

O Homem de Lata

O Homem de Lata simboliza a dureza de quem perdeu a capacidade de sentir. Nenhum relacionamento verdadeiramente restaurador pode existir sem empatia. Sem coração, sem sensibilidade e sem compaixão, torna-se impossível construir vínculos transformadores (Filemon). Somos chamados para ser uma comunidade de misericórdia e que exerce isso com inteligência (Zc 7. 9/Mat 9. 13; 12. 7). Sem um coração a “letra fria mata” pela dureza.

Relacionamentos sem coração infeccionam e consequentemente causam tétano espiritual!

O Leão Covarde

O Leão covarde simboliza a aparência de quem não possui aquilo que afirma ter.

A distância favorece a hipocrisia, porque nada é mais distante do que oferecer aos outros aquilo que nunca foi desenvolvido dentro de si. A verdadeira coragem nasce quando mente (espantalho) e coração (homem de lata) entram em alinhamento.

É justamente aqui que percebemos uma das maiores influências metodistas presentes na obra de Baum: a transformação integral do ser humano. Os personagens representam áreas que precisam ser restauradas para que exista uma vida cristã madura e frutífera. Isso dificilmente é mero acaso poético.

Alinhamento e Validação

A chegada à Cidade das Esmeraldas encerra o processo de alinhamento. A partir daí, inicia-se outro estágio: a validação.

Esse processo é representado pela missão de enfrentar a Bruxa do Oeste e tomar sua vassoura. Muitos cristãos confundem alinhamento com validação. Porém, assim como aconteceu com Abraão, toda peregrinação precisa ser provada (Gn 22. 1- 19).

A validação é necessária para que o restante da caminhada cristã seja marcado por maturidade, segurança e paz. Mais uma vez, a obra retrata isso ao separar Dorothy de seus amigos (Dt 8. 2). Nesse momento, percebemos que o verdadeiro resultado do discipulado é possuir dentro de si aquilo que pode salvá-lo nos dias difíceis (II Cr 32. 31).

A pergunta inevitável é: o nosso discipulado também está vindo ao nosso encontro para nos salvar no cotidiano? Aquilo que aprendemos se tornou heroico dentro de nós?

A Bruxa do Oeste — símbolo daquilo que precisa morrer durante a caminhada cristã — é derrotada por água. Isso levanta uma questão poderosa: qual experiência espiritual propõe vencer o mal através da imersão? (Atos 2. 41)

A morte da Bruxa pela água se torna uma clara figura do batismo.

Talvez Baum desejasse se afastar de sua herança cristã, mas ela continuava viva dentro dele desde a infância — algo que transparece fortemente em sua imaginação literária. Aqui, as palavras de Salomão ganham vida e forma, como um personagem de OZ: “Educa a criança no caminho em que deve andar; e até quando envelhecer não se desviará dele” (Provérbios 22. 6)

Validação e Emancipação

Depois de alinhada e validada, Dorothy finalmente é emancipada.

A emancipação é o estágio final do discipulado cristão.

No fim da história, Dorothy descobre que não precisa do Mágico de Oz nem da Bruxa Boa do Norte para voltar ao Kansas. Agora ela pode retornar por si mesma.

Porque está alinhada, validada e emancipada.

Somewhere Over the Rainbow

De volta ao Kansas, e com o interior restaurado, Dorothy descobre que pode ser feliz em qualquer lugar, com quaisquer pessoas e sob quaisquer circunstâncias. O que começou com alguém que sentia não pertencer a lugar nenhum termina exatamente no oposto: uma alma plenamente reconciliada consigo mesma (II Co 5. 17).

Isso é a vida cristã: uma guinada completa. Um abandono definitivo da escuridão e de tudo aquilo que nos afasta de Deus e de uma vida com propósito. Toda a longa caminhada de Dorothy serve para revelar uma verdade profunda: aquilo que realmente precisamos para sermos felizes não pode ser entregue por outra pessoa. Precisa ser encontrado dentro de nós — após sermos transformados pelo discipulado no caminho: “Não existe lugar melhor que o nosso lar” (Dorothy)


Ney Gomes é o autor do BLOG ‘Grãos de Entendimento’,
um trabalho de 19 anos, com mais de MIL poesias/textos publicados.
Também é o autor dos livros “Êxito Sobre os Desertos 1 e 2”.
26/04/2026 – Twitter@neygms
 “Tudo o que passou é experiência. O agora é relacionamento e o que está por vir é desafio".


Comentários

Postagens mais visitadas