Socialismo Verdadeiro, por Paulo [2/3]
O SOCIALISMO VERDADEIRO:
UMA LEITURA TEOLÓGICA DE FILIPENSES 2
À LUZ DA TRADIÇÃO APOSTÓLICA.
Paulo começa Filipenses 2 apresentando os elementos que
devem fundamentar a comunidade:
“Se há algum conforto em Cristo, se
alguma consolação de amor, se alguma comunhão no Espírito, se alguns
entranháveis afetos e compaixões...” (Filipenses 2:1)
Observe a ordem estabelecida
pelo apóstolo.
Primeiro, Cristo (dimensão
total)
Depois, o amor (dim.
Interior)
Em seguida, a comunhão no
Espírito (dim. Exterior)
Finalmente, os afetos e as compaixões (dim. Desconhecida)
A ética comunitária nasce dessa realidade espiritual.
Não se trata simplesmente de uma construção social. Trata-se
de uma consequência da união do homem com Cristo. Essa perspectiva também ajuda
a compreender a relação entre os capítulos 1 e 2 da
epístola.
No final do capítulo 1,
Paulo aborda a responsabilidade da Igreja diante da sociedade: “Somente deveis portar-vos dignamente conforme o evangelho
de Cristo...” (Fil 1. 27)
No capítulo 2,
porém, sua atenção se volta para a responsabilidade da Igreja dentro de si
mesma.
A ordem é significativa.
A Igreja não pode pretender transformar o mundo enquanto
reproduz internamente as mesmas estruturas de egoísmo, competição,
vaidade e disputa que denuncia lá.
A missão social da Igreja depende da autenticidade
de sua vida comunitária. Antes de ser uma comunidade que fala ao mundo, a
Igreja precisa ser uma comunidade que vive aquilo que anuncia. E como estamos longe disso ainda!
5. O alcance relacional da justiça e da
distribuição.
Um dos equívocos
recorrentes das grandes teorias sociais consiste em imaginar que uma fórmula
universal poderia solucionar, de maneira uniforme, problemas humanos que
são profundamente diferentes em sua natureza e em seu contexto.
A
perspectiva bíblica é mais relacional. O cuidado cristão começa com
pessoas concretas, necessidades concretas e comunidades concretas. O Novo
Testamento não apresenta uma fórmula econômica universal. O socialismo
verdadeiro cujo efeito é poderoso e devastador sobre a pobreza, é de curto alcance.
Apresenta princípios espirituais universais.
Amor. Justiça. Generosidade.
Misericórdia. Partilha. Serviço. Responsabilidade.
Esses princípios precisam ser encarnados de acordo
com as necessidades reais de cada comunidade. Por isso, a justiça cristã não é
simplesmente distributiva, ela é também relacional. Jesus morreu por relacionamentos,
logo, todo socialismo que dá certo deve passar por essa única verdade.
Ela pergunta não apenas:
“Quanto cada pessoa
possui?”
Mas também:
“Quem está ao meu lado?”
“De quem devo cuidar?”
“Qual é a responsabilidade
que tenho diante da necessidade do outro?”
Nesse sentido, a comunidade cristã constitui uma espécie de laboratório da nova
humanidade inaugurada em Cristo.
6. Cristo como fundamento e paradigma.
Toda a argumentação de Paulo
converge para Filipenses 2:5: “De sorte que haja em vós o mesmo sentimento que houve
também em Cristo Jesus.”
Aqui está o centro da questão.
Paulo não oferece simplesmente um princípio ético. Ele apresenta uma pessoa. Cristo
não é apenas o autor do socialismo. Ele
é o seu conteúdo, fundamento e paradigma. O socialismo cristão nasce da
participação na vida Daquele que se esvaziou, assumiu a forma de servo e
entregou-se pelos outros.
O SOCIALISMO [COMUNISMO] NÃO É ERRADO APENAS POR SER SOCIALISMO. ELE É ERRADO POR SER >> INCOMPLETO <<.
A famosa passagem cristológica de Filipenses 2. 6- 11 demonstra que a verdadeira grandeza, na lógica do Reino, não consiste na dominação, mas na autodoação, na necessária encarnação.
A estrutura do socialismo cristão é, portanto,
profundamente contracultural.
O mundo procura grandeza por
meio da ascensão.
Cristo revela grandeza por
meio da descida.
O mundo associa poder à
capacidade de tomar.
Cristo associa poder à
capacidade de doar.
O mundo pergunta:
“O que posso conquistar?”
Cristo nos ensina a
perguntar:
“O que posso entregar?”
É
precisamente nessa inversão que encontramos o coração do socialismo que
precisamos entregar ao mundo! Mas é impossível fazer isso sem o corpo de
Cristo ressurreto!
7. O amor como fundamento da justiça.
Policarpo compreendeu essa dinâmica quando vinculou diretamente o amor à justiça. Para ele, permanecer na caridade significa afastar-se do pecado. Isso significa que a justiça cristã não pode ser construída sem amor. Uma sociedade pode possuir leis perfeitamente elaboradas e, ainda assim, continuar profundamente injusta. Pode possuir instituições sofisticadas (Brasília) e permanecer desumana (Brasil). Pode possuir discursos de igualdade e continuar alimentando o egoísmo. A justiça cristã, entretanto, nasce de uma transformação da disposição interior, na fé que há no corpo de Cristo!
Por isso, o amor não é
simplesmente um sentimento acrescentado à justiça. Ele é um de seus
fundamentos.
Sem
amor, a justiça pode transformar-se em instrumento de poder.
Com
amor, a justiça torna-se serviço.
Sem
amor, a igualdade pode transformar-se em nivelamento.
Com
amor, a igualdade torna-se
reconhecimento da dignidade do outro.
Sem
amor, a política pode transformar-se em disputa.
Com
amor, a responsabilidade social torna-se serviço ao próximo.
Ney Gomes – 26 de maio de 2021. #bloggrãos
“Blog Grãos, reduto da cultura escrita artesanal”.
“Tudo o que passou é experiência. O agora é relacionamento e o que está por vir é desafio”.


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