Conto - Sobre Amor e Galinhas.



Sobre Amor e Galinhas.
(Sobre o valor das expectativas)

Carlos Boiadeiro trabalhava numa fazenda ao sudeste do estado do Rio. Ele era completamente apaixonado por Ritinha, sobrinha do dono da fazenda. Ritinha era encantadora e sempre parecia trazer com sua presença a esperança de dias melhores.

Ela frequentemente passava por ali, onde Carlos trabalhava, bem pelo começo da tarde. Os dois trocavam olhares furtivos; ele sempre olhando por de trás dos animais que cuidava. Ela, deixava a sombrinha descer um pouco abaixo da linha de seus olhos. Mas se percebia, os dois se gostavam!

Um dia Carlos criou coragem; aquela se pede dos homens da pecuária! Se aproximou do caminho e convidou Ritinha para um encontro. Ela então pediu que ele lhe esperasse ali no dia seguinte, por volta do fim da tarde, lá pelas 4 horas. No outro dia, ao se levantar Carlos mal podia se conter de tanta alegria. Ficou contando as horas e fez quase tudo mal feito pelo resto da manhã, por tanta ansiedade. Na hora marcada, lá estava ele, roupa limpa, perfume e sorriso estampado. Em suas mãos, flores colhidas dali mesmo, silvestres. Um buquê de giestas e frésias!

Mas ela nunca apareceu para o encontro!

Vinte anos se passaram. E o mundo fez o seu trabalho! Mudando, transformando e alterando todas as coisas de lugar. Mas Carlos ainda era funcionário da fazenda e Ritinha, a sobrinha do dono (o palco principal não havia ainda sido desmontado). Então um belo dia, Rita (por que agora ela já tinha dois filhos e um casamento arruinado) vai visitar seus familiares. Com dificuldades os olhos envelhecem e Rita, mais uma vez, casualmente cruza os seus com os de Carlos. Ele nunca se casara, mas não por causa de Rita (ele nunca falava sobre isso, e ninguém nunca perguntava). A bem da verdade, ele nunca esqueceu “Ritinha”, ainda que nada falasse, seu silêncio era sempre esperançoso.

Quando eles se aproximaram, não demorou e uma velha chama reacendeu. Marcaram então, sob forte entusiasmo juvenil um novo encontro. Rita, tentando compensar com saudosismo romântico marca na mesma hora e lugar. Carlos então repetiu o ritual de vinte anos antes, mas as frésias já não eram tão abundantes.

Um pouco depois da hora marcada, encostado na cerca de arames, Carlos esperava. No curral não muito longe os animais já pareciam pela ausência dos barulhos se ajeitar para a noite que também chegava. Uma galinha sai de dentro matagal, ciscando o mato miúdo da beira do caminho. Carlos lhe acompanha atentamente com os olhos, como quem quer fugir de algoz pensamento. Inesperadamente ele pega a galinha e vai embora. Deixado para trás, o modesto buquê testemunharia que ele esteve ali.

Foto: Fazenda Visconde
No dia seguinte bem cedo, seu auxiliar e companheiro de trabalho pergunta como tudo tinha acontecido. Ele tranquilamente diz que veio embora com uma galinha debaixo do braço, e que não ficou para esperar Rita. Sem entender bem o que tinha ouvido, seu amigo lhe pergunta do porquê de uma galinha e de não ter esperado um pouco mais.
O “boiadeiro” então lhe responde: - Meu amigo, se há uma coisa que os anos me ensinaram é que é muito melhor criar galinhas do que criar expectativas!


Ney Gomes. Agosto, 2016. – Twitter@neygms

“Teólogos escrevem sobre Deus. Mas quanto aos poetas, só Deus sabe!”

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